Prevenção
Câncer na família: quando os genes aumentam o risco
A maioria dos cânceres não é herdada. Mas, em algumas famílias, uma alteração genética passada de pais para filhos aumenta muito o risco. Saber disso a tempo permite prevenir ou descobrir o câncer bem no começo.
Herdado ou não?
Quase todo câncer nasce de alterações genéticas, mas a grande maioria delas acontece ao longo da vida, só nas células do tumor, e não passa para os filhos. Apenas cerca de 5% a 10% dos cânceres são hereditários: a pessoa já nasce com uma alteração em um gene de proteção, presente em todas as células do corpo.
Quem carrega uma dessas alterações tem 50% de chance de passá-la para cada filho. Ter a alteração não significa que a pessoa vai ter câncer, e sim que o risco é maior do que o da população. Por isso, quem sabe pode se cuidar mais cedo e melhor.
BRCA: o caso Angelina Jolie
Os genes BRCA1 e BRCA2 ficaram conhecidos no mundo todo em 2013, quando a atriz Angelina Jolie contou, em um artigo no jornal The New York Times, que carregava uma alteração no BRCA1. A mãe dela tinha morrido de câncer aos 56 anos. Os médicos estimaram que Angelina tinha 87% de risco de ter câncer de mama e 50% de câncer de ovário ao longo da vida.
Ela decidiu retirar as duas mamas de forma preventiva, o que reduziu o risco de câncer de mama para menos de 5%. Dois anos depois, retirou também os ovários e as trompas. A decisão dela levou milhares de mulheres a procurarem o teste genético, e o fenômeno ficou conhecido como "efeito Angelina".
Além de mama e ovário, alterações no BRCA também aumentam o risco de câncer de próstata e de pâncreas. A cirurgia preventiva é uma das opções, mas não a única: há também exames mais frequentes, como a ressonância das mamas, e remédios. A escolha é individual e deve ser feita com a equipe.
Síndrome de Lynch: o intestino em foco
A síndrome de Lynch é a causa hereditária mais comum de câncer de intestino. Ela também aumenta o risco de câncer de endométrio, estômago, ovário, vias urinárias e outros. A boa notícia é que a prevenção funciona: colonoscopias regulares, geralmente a cada um ou dois anos, permitem retirar pólipos antes de virarem câncer. E os tumores ligados à síndrome de Lynch costumam responder muito bem à imunoterapia.
Li-Fraumeni, e por que ela importa tanto no Brasil
O gene TP53 é conhecido como o "guardião do genoma": ele impede que células com defeito se multipliquem. Quando a pessoa nasce com uma alteração nesse gene, tem a síndrome de Li-Fraumeni, com risco alto de vários tipos de câncer desde cedo, como sarcomas, câncer de mama em mulheres jovens, tumores cerebrais, leucemias e tumores da glândula adrenal (suprarrenal).
No mundo, a síndrome é rara. No Brasil, ela tem uma história particular. No Sul e no Sudeste do país, é comum uma alteração específica do TP53, chamada R337H, que veio de um ancestral comum, provavelmente trazida da Península Ibérica há séculos. No Paraná, cerca de 1 em cada 300 recém-nascidos carrega essa alteração. Por isso, o Paraná tem uma das maiores taxas do mundo de tumores da adrenal na infância.
A R337H costuma ser mais leve do que a forma clássica da síndrome: a maioria dos portadores nunca terá um tumor na infância. Ainda assim, saber que a alteração existe faz diferença. No Paraná, um programa pioneiro testou recém-nascidos e acompanhou as crianças portadoras, o que permitiu descobrir tumores bem no início, quando a cura é mais fácil. Para adultos com Li-Fraumeni, existem protocolos de acompanhamento, que incluem a ressonância de corpo inteiro.
Quando desconfiar
- Vários parentes do mesmo lado da família com câncer, principalmente do mesmo tipo ou de tipos relacionados.
- Câncer em idade jovem, antes dos 50 anos.
- A mesma pessoa com mais de um câncer.
- Cânceres menos comuns, como câncer de mama em homem, de ovário, de pâncreas ou tumor de adrenal na infância.
- Uma alteração genética já conhecida em algum parente.
O que fazer
Se você se reconhece nessa lista, procure um oncologista ou um geneticista para uma consulta de aconselhamento genético. Nela, o médico avalia a história da família, indica se o teste faz sentido e explica o que o resultado significa. O teste costuma ser feito com sangue ou saliva. Os planos de saúde cobrem o exame em situações definidas pela ANS.
Saber é uma forma de se proteger. Um resultado positivo não é uma sentença: é a chance de fazer prevenção, descobrir o câncer cedo e orientar toda a família.
Fontes
- Jolie A. My medical choice. The New York Times, 14 maio 2013. nytimes.com
- Costa TEJ, et al. Penetrance of the TP53 R337H mutation and pediatric adrenocortical carcinoma incidence associated with environmental influences in a 12-year observational cohort in Southern Brazil. Cancers, 2019;11(11):1804. doi.org/10.3390/cancers11111804
- Instituto Nacional de Câncer (INCA). Câncer hereditário. gov.br/inca
Conteúdo informativo. Não substitui a avaliação médica individual nem o aconselhamento genético.