Medicina de precisão
Biópsia líquida: o que um exame de sangue revela sobre o tumor
Todo tumor solta pequenos fragmentos do seu DNA na corrente sanguínea. Encontrá-los em uma amostra de sangue já ajuda a escolher tratamentos e, em alguns casos, a evitar quimioterapia desnecessária.
O que é
As células do tumor, ao se renovarem, liberam no sangue pedaços do seu material genético. Esse DNA tumoral circulante (os médicos chamam de ctDNA) pode ser detectado por exames de laboratório muito sensíveis. É o que se chama de biópsia líquida: em vez de retirar um pedaço do tumor, analisa-se uma amostra de sangue.
Para que serve hoje
- Encontrar alterações genéticas do tumor quando a biópsia de tecido é arriscada, insuficiente ou demorada. Isso ajuda a indicar remédios dirigidos a essas alterações.
- Saber se sobrou doença depois da cirurgia, mesmo quando os exames de imagem estão normais.
- Acompanhar a resposta ao tratamento e, às vezes, perceber uma volta da doença antes de ela aparecer na tomografia.
Um exemplo concreto: quem precisa de quimioterapia?
Depois da cirurgia de um câncer de intestino em estágio II, a decisão de fazer quimioterapia é difícil: muitas pessoas já estão curadas pela cirurgia, mas não há como saber quem. O estudo DYNAMIC, com 455 pacientes, testou usar o ctDNA para decidir: só recebia quimioterapia quem tivesse DNA do tumor no sangue após a cirurgia.
Mesmo com quase metade das pessoas tratadas, a proporção de pacientes sem a volta do câncer em dois anos foi praticamente igual nos dois grupos: cerca de 93%. Ou seja, muita gente pôde ser poupada da quimioterapia sem perder segurança.
Os limites
Um resultado negativo não garante que não exista doença: alguns tumores soltam pouco DNA no sangue. Os exames variam entre laboratórios, nem sempre são cobertos pelos planos de saúde, e o seu uso para decidir tratamentos ainda está sendo definido em muitos tipos de câncer. Por isso, a biópsia líquida complementa, e não substitui, a avaliação completa.
Este é um dos meus temas de pesquisa. Publiquei, com colegas, uma revisão sobre o uso do DNA tumoral circulante no câncer de vias biliares (World Journal of Clinical Oncology, 2025) e outra sobre seu papel em pacientes que recebem imunoterapia (Surgical Oncology Clinics, 2026).
Fontes
- Tie J, et al. Circulating tumor DNA analysis guiding adjuvant therapy in stage II colon cancer (estudo DYNAMIC). New England Journal of Medicine, 2022. Resumo em ascopost.com
- Teixeira MF, Borad M, Uson Junior PLS. Circulating tumor DNA in biliary tract cancers: a review of current applications. World Journal of Clinical Oncology, 2025. doi.org/10.5306/wjco.v16.i10.107875
Conteúdo informativo. Não substitui a avaliação médica individual.